As Origens de Uma Luta
De pré-adolescente a pioneira na enfermagem
Chegando em São Paulo em sua pré-adolescência, Dona Bia foi recebida pela cidade com braços abertos, mas também com muitos desafios. Trabalhando em casas de família desde cedo, enfrentou dificuldades que moldariam seu caráter e sua determinação.
Com uma bronquite horrível agravada pelo nervoso das situações difíceis que viveu - incluindo o abandono materno e as ameaças do padrasto - Dona Bia fez uma promessa a si mesma e a Deus: nunca mais voltaria a morar na casa da mãe. Essa determinação a levou a construir sua própria história.
Sua jornada profissional começou nas grandes mansões dos Jardins, mas sua vocação para cuidar do próximo a levou ao curso de enfermagem. Num tempo de exclusão racial, Dona Bia foi uma das primeiras mulheres negras a trabalhar em um pronto-socorro de São Paulo, quebrando barreiras e abrindo caminhos.
O "Quero um Teto"
O movimento que mudou a vida de milhares de famílias
A necessidade de ter seu próprio lar levou Dona Bia a comprar um barraco na favela. Essa experiência pessoal despertou nela um chamado maior: lutar por todos que, como ela, sonhavam com um teto.
Em 1988, junto com Sebastião Bezerra, nasceu o Movimento "Quero um Teto". Com uma conta no banco aberta pelo gerente com um "voto de confiança" - sem um tostão inicial - e a primeira área comprada em Taipas de uma senhorinha de 80 anos que acreditou no sonho, o movimento começou a tomar forma.
Com o apoio da prefeitura na gestão Luiza Erundina, que cedeu engenheiros e arquitetos, os primeiros 39 lotes foram criados. Mas a demanda era enorme, e o movimento cresceu: Taipas, Anhanguera, Osasco, Morro Doce... Mais de 2.500 famílias foram beneficiadas.
Um episódio marcante mostra o caráter de Dona Bia: um senhor com cinco filhos chegou chorando, precisando de uma casa. Sem vagas disponíveis, ela deu a SUA vaga para ele. Quando questionada, respondeu: "Ele tá precisando mais do que eu, eu sou solteira, eu não tenho filho, ele tem cinco. Então vou dar a minha vaga pra ele e Deus prepara outra pra mim."
O Movimento Habitacional dos Palmares
Um novo desafio, uma nova missão
Após anos de trabalho intenso no "Quero um Teto", um desafio transformador surgiu. Uma pessoa com quem trabalhava empurrou para Dona Bia a responsabilidade por problemas financeiros e a desafiou: "Quero ver se você é capaz de fundar um outro movimento sozinha."
Foi assim que nasceu o Movimento Habitacional dos Palmares. Os primeiros passos foram difíceis - Dona Bia admite que escolheu pessoas erradas para liderar inicialmente e precisou retomar as rédeas quando viu que o movimento poderia se perder.
Enquanto isso, ela não se limitava à moradia. Abriu um escritório que trabalhava com cestas básicas, entrega de leite, e diversos outros serviços sociais. Conhecia a Secretaria de Habitação "desde o primeiro andar até o vigésimo segundo andar", sempre buscando recursos para ajudar sua comunidade.
Valores que Guiam Nossa Luta
Transparência, honestidade e amor ao próximo
Uma das marcas mais fortes de Dona Bia é sua integridade. Ela sempre deixou claro:
Essa postura é visível até em sua vida pessoal: "Se por um acaso hoje em dia vocês fossem na minha casa, eu morava numa bela casa, num palacete, mas vão na minha casa, minha casa nem acabamento tem."
Hoje, com a documentação em ordem e a mesma determinação de sempre, Dona Bia retoma com força total o trabalho do Movimento Habitacional dos Palmares. Com inscrições na CDHU e COAB, está pronta para continuar ajudando as famílias a realizarem o sonho da casa própria.
Um Legado de Esperança
A base da pirâmide, unida e forte
Dona Bia resume sua filosofia de vida e trabalho de forma poderosa:
Sua trajetória é um testemunho vivo de que é possível transformar realidades através da união, da fé e do trabalho honesto. De simplesmente "a dona Bia" no início, hoje é uma líder reconhecida, com cursos e conhecimentos que soma à sua vasta experiência de vida.
E ela avisa: "Além do Movimento Habitacional dos Palmares, vocês vão ouvir falar muito, muito, muito da dona Bia."
Sua mensagem final é de esperança e fé: "Deus abençoe quem ouvir, parar um pouquinho para ouvir. E eu quero que o meu Palmares vença."